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De qual hipótese estamos falando?

Atualizado: 15 de mar. de 2023

Pesquisas científicas no campo da Comunicação

Autor: Eduardo Ariel.



Ao discorrer sobre o campo da comunicação Braga (2009) afirma que na sociedade contemporânea os processos midiatizados se fazem presentes de maneira ubíqua, especialmente na forma e nos efeitos decorrentes da ação da mass media na construção da imagem social. Decerto, quase todos os relacionamentos humanos e sociais carregam uma “penetrabilidade” pervasiva que faz do corpus, tanto como do aparato midiático processos interacionais crescentes e de referência, mesmo nas comunicações interpessoais – quiçá nas instâncias mais amplas, mediadas por editorias ou inteligências híbridas (humano-máquinas).


Como o sujeito-pesquisador faz parte da sociedade, lidar com tais enunciações pode demandar metodologias próprias, já que em alguma medida o campo de pesquisa e o envolto seguem em constante intermediações.


Como efeito, Lima (2001) trata o campo de estudo da comunicação como um universo teórico multifacetado. Já Ferreira (2007) considera inócuo delimitar um campo multidisciplinar como o da comunicação, defendendo que é a convivência mútua entre essas teorias e, sobretudo, dos desafios que elas propõem entre si que fazem a área avançar e se desenvolver. Neste emaranhado de tendências é que se constrói a própria disciplina.


Em consonância, Santaella (2010) explicita o status da configuração pictórica e imagética da sociedade atual, em retrospectiva, ao relacioná-la com o desenvolvimento e a sofisticação dos meios de impressão gráfica. Para ela cada vez mais o discurso verbal está se entremeado com imagens em combinatórias das mais variadas, sejam: as enciclopédias, os livros ilustrados e, sobretudo, os jornais ou as revistas. De maneira complementar, um dos campos que também ganhou por demais com isso foi a ciência. De meados do século XX para cá, a era das mediações computacionais deu passos largos (talvez saltos), muito por conta da ampliação da capacidade de processamento, colocando os pesquisadores em um estágio limítrofe para traduzir informação em imagem e vice-versa. Tal vertente se dá pela mutação radical e contínua nos processos de produção da imagem e o aumento da relevância como intermeio social. Haja vista que muitas delas são simulacros da representação da realidade, em um ecossistema midiático em que produtos-veículos-leitores se misturam.


De mesmo modo, grande parte da imagem modelada na opinião pública se dá pela linha editorial e o percurso com que as notícias circulam na sociedade contemporânea. Talvez seja possível dar conta que o campo profissional do jornalismo sofreu muitas alterações, pois sua atividade mudou significativamente conforme diversas evoluções socioculturais e tecnológicas se sucederam. Afinal, novas formas de fazer jornalismo foram introduzidas com o advindo da internet. A transformação cultura profissional do jornalista é inerente a sua relação com o campo, verifica-se que esse é um processo contínuo, em constante desenvolvimento, e que pode mudar de diferentes formas. Na atualidade, com as tecnologias digitais, as rotinas de produção se alteraram e promoveram novas atribuições, principalmente aquelas que definem o novo modo de se relacionar com os receptores (leitores e usuários).


O sentido introdutório formulado até aqui fornece pistas para questões centrais dentro do campo da communication research, onde ultrapassar o impasse do debate ideológico, tanto como propor integrações entre domínios disciplinares diversos parece ser importante. Assim sendo, dentre as inúmeras possibilidades de pesquisa pode-se citar os efeitos dos mass media e sua ação na construção da imagem social. Para tanto, muito dos seus efeitos foram atualizados desde o Transfermodell der Kommunukation (Schulz, 1982), onde os processos comunicações eram tidos como assimétricos, individuais, intencionais e episódicos. Sendo assim, os efeitos foram revistos para mudanças de longo prazo, os casos singulares (p.ex. campanhas) assumiram um escopo mais global em áreas temáticas, o efeito cognitivo que implicaria no consumo das comunicações de massa se sobrepunharia aos valores e comportamentos atitudinais (Noelle Neuman, 1983), as metodologias de coleta de dados ganhariam em complexidade ao assumirem um caráter integrado (p.ex. aparato com interfaces entre métodos e técnicas de pesquisa), o quadro temporal se alteraria para evidenciar o processual sedimentar da comunicação no tempo e, por último, se manifestaria a vista interdisciplinar por conta da interação e da interdependência dos fatores no processo de influência no ecossistema comunicacional – seja para emissores ou receptores (destinatários).


Tudo isso corroboraria com dois fatores adjacentes que incrementaram à lógica administrativa do campo da communication research: (a) a influência crescente da sociologia do conhecimento; (b) o abandono da teoria informacional da comunicação. Tais contribuições oriundas dessas mudanças trouxeram novos olhares em direção à aquisição de conhecimentos e de representações da realidade. Por isso, abandonou-se o domínio dos efeitos intencionais, ligados a um contexto comunicativo limitado no tempo e caracterizado por objetivos destinados a obter esses efeitos: agora, se passaria para efeitos em certa medida latentes e implícitos no modo como determinadas distorções na produção das mensagens refletiriam sobre o patrimônio cognitivo dos destinatários.


Também no centro da problemática dos efeitos, colocou-se, portanto, a relação entre ação constante dos mass media e o conjunto de conhecimentos acerca da realidade social, que daria forma a uma determinada cultura e que sobre ela agir ia-se dinamicamente. Nessa relação, há três características dos mass media que são importantes: a acumulação, a consonância e a onipresença (Noelle Neumann, 1973). Além delas parece um consenso que existe uma grande diversidade de teorias da comunicação vinculadas aos processos intrínsecos que investigam os intermeios e interfaces diversas dos veículos, bem como suas práticas de modelagem ou sugestionamento da realidade. Em vista das pesquisas não serem influenciadas por bias advindos da olga criada pela indústria da comunicação de massa, uma séria de constructos metodológicos de pesquisa surgiram. Com o incremento do campo da communication research muitos pesquisadores trabalharam em conjunto a fim de melhorar o entendimento do processo de pesquisa e compreender certos efeitos da mass media no longo prazo, donde originaram-se: (a) agenda setting, (b) hipótese da espiral do silêncio e do (c) newsmaking.


Por meio dos estudos de Gabriel Tarde e Walter Lippmann, a hipótese da agenda setting para Wolf (2001) pode ser compreendida como um sistema aberto que se refere à definição da linha da informação que será emitida, possuindo premissas interacionais sobre o seu fluxo constante, suas ações para com o receptor e os meios de comunicação. Segundo Lippmann, o sujeito não entende a realidade como ela é. Ele a constrói a partir do que se imagina, dependendo da natureza da mídia aliciam-se temas que posteriormente serão discutidos e introduzidos nas “agendas” do indivíduo - decerto, em conjunto com a agenda do público.


Disso tudo, existe uma modelagem experiencial do mundo fomentada pelos meios de comunicação de massa. O pressuposto fundamental do agenda-setting e que configura sua hipótese, perpassa pela compreensão das pessoas sobre boa parte da realidade social que lhes é fornecida, por empréstimo, pelos mass media (Shaw, 1979). Ademais, Cohen (1963) postula que a imprensa (em seus diversos gêneros e modelos), na maior parte das vezes, não consegue dizer às pessoas como pensar, mas possui uma ampla capacidade espontânea para enunciar aos seus leitores sobre os temas que devam pensar qualquer coisa. Aqui também poderia estar incluso os mecanismos utilizados pela indústria cultura.


Tal alargamento acrítico pode ser o objetivo de alienação desejado pela burguesia e seus stakeholders. Para tanto, pensar e fazer pesquisa em um contexto tão complexo e árido pede um constructo feito de camadas simbólicas e flexíveis de enunciação com pressupostos empíricos.


Em adição, como alternativa para romper com uma possível imagética editorial, Wolf (2001) apresenta a hipótese do agenda-setting como um núcleo de temas e de conhecimentos parciais, susceptíveis de serem, posteriormente, organizados e integrados numa teoria geral. Nela o intuito residiria sobre como ocorre a mediação simbólica incidida nos efeitos exercidos pelos mass media na realidade. Para tanto, a sua importância reside no fato de tornar explícitos alguns laços fundamentais existentes entre: (a) lógica interna do funcionamento da informação de massa, (b) os critérios de relevância que a estruturam, (c) os processos simbólicos que presidem à atividade comunicativa, (d) as influências cognitivas que, através de intervenções complexas de todas as variáveis, exerceriam influência sobre o indivíduo.


A espiral do silêncio é uma teoria da ciência política e comunicação de massa proposta em 1977 pela alemã Elisabeth Noelle Neumann. No modelo de opinião pública, a ideia central é que os indivíduos não omitam sua opinião quando conflitantes com aquela dominante, devido ao medo do isolamento e da crítica social. Quanto mais um sujeito acredita que a sua opinião sobre um determinado assunto está mais próxima da opinião pública vigente, julgada majoritária, existe uma maior probabilidade dele se expressar abertamente. Tão logo a distância entre a opinião desse interlocutor e a opinião pública aumentam, também ocorre uma probabilidade maior dessa pessoa se calar e de se autocensurar.


Ainda sobre essa teoria é importante lembrar que existe um isolamento dos indivíduos no silêncio, quando estes têm opiniões diferentes das veiculadas pela mídia de comunicação de massa. A teoria do espiral do silêncio ajuda a entender como a mídia de massa funciona em relação à opinião pública ao emudecer suas ideias. Para tanto, em sua constituição residem três mecanismos constituintes do modelo: (a) acumulação que se refere ao excesso de exposição de determinados temas; (b) consonância que seria à forma semelhante como as notícias são produzidas ou veiculadas e (c) finalmente a ubiquidade, à presença da mídia em todos os lugares.


A teoria do newsmaking pressupõe que notícias cumpram uma rigorosa rotina industrial determinada pelos veículos de comunicação por causa da quantidade excessiva de fatos presentes no cotidiano. Embora o jornalista seja participante ativo na construção da realidade, não há uma autonomia incondicional em sua prática profissional, mas sim uma submissão para com um planejamento produtivo. As normas ocupacionais teriam maior importância do que as preferências pessoais na seleção das notícias. Diante da eventualidade dos acontecimentos, os veículos de comunicação precisam colocar ordem no tempo e no espaço previsto. Para isso, estabelecem determinadas práticas unificadas na produção das notícias. É dessas práticas que se ocupa a teoria do newsmaking. Dela destaca-se um dos principais componentes inerentes dessa teoria, tida como noticiabilidade. Ela é constituída pelo conjunto de requisitos que se exige dos acontecimentos - do ponto de vista da estrutura do trabalho nos órgãos de informação, tanto como dos jornalistas - para adquirirem a existência pública das notícias. Não à toa, as pesquisas que fazem uso de Newsmaking se desenvolvem em duas direções: a) a cultura profissional dos jornalistas; b) a organização do trabalho e dos processos produtivos.


É notório que a influência dos meios midiáticos é extremamente contínua. A seleção vocabular, o direcionamento e o impacto das notícias são mecanismos que a imprensa sabe aproveitar. Desse modo, a atividade jornalística é carregada de uma responsabilidade social, tendo em vista o “pseudo poder” do indivíduo inserido no contexto informativo das notícias. Ademais, segundo Schulz (1976) seja qual for a relação entre a realidade divulgada e a verdadeira, os receptores consideram as notícias como testemunho autêntico dos acontecimentos reais. Isto significa que no tocante ao seu efeito ele deve colocar-se em equação com a realidade.


Diante dessa evidência, construir o objeto implica em traçar um problema e mobilizar uma teoria capaz de fundamentá-lo: seja em pesquisas teóricas ou empíricas. Para Bachelard (1968), somente a observação da realidade não é suficiente para a construção do conhecimento científico. A compreensão do mundo concreto e empírico necessita, sobretudo, do pensamento e da teoria crítica para se fundamentar. Convém, portanto, não separar esses polos. Lopes (2010) postula que a teoria e o trabalho de campo podem, juntos, construir um ambiente fecundo capaz de viabilizar a práxis da investigação, mediante o teste das hipóteses norteadoras das nossas intenções e os seus respectivos projetos de descobertas. Qualquer que seja a ênfase do estudo proposto, a experiência do trabalho de campo sempre inclui a relação social posta pelo fenômeno e a observação criteriosa do real atreladas à concepção pessoal do pesquisador.


Por fim, muito do que fora apresentado visa lançar luz para importância de “metametodologias” que auxiliam na construção de hipóteses, ao descortinar o pesquisador das influências midiáticas na formulação da imagem do campo da sua investigação. Isso leva, às vezes equivocadamente, ao enunciado de que a pesquisa pretende verificar ou confirmar as hipóteses como nas tipificações nomotéticas. Entretanto, aquelas tidas como de hipóteses-insight que dão base as pesquisas qualitativas raramente se comportam assim. Muito do caráter espontâneo decorrente das metodologias citadas aqui, pois elas podem auxiliar na formulação de hipóteses mais adequadas aos desafios e o contexto vigente dos estudos em Comunicação.


Referências

BRAGA, J. L. B. A prática da pesquisa em Comunicação: abordagem metodológica como tomada de decisões. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. E-compós, Brasília, v.14, n.1, jan./abr. 2011.

COHEN, B. C. The press and foreign policy, Princeton university press, Princeton,1963.

FERREIRA, J. (org). Cenários, teorias e epistemologias da Comunicação. Rio de Janeiro: E-papers,2007.

LIMA, V. A. Mídia – Teoria e política. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2001.

NOELLE NEUMANN, E. The Effect of media-on-media effects research, Journal of Communication, vol. 33, n°3, pp. 157-165, 1983.

NOELLE NEUMANN, E. Return to the concept of powerful mass media, Studies of Broadcasting, vol. 9, pp. 67-112, 1973.

SANTAELLA, L. A ecologia da comunicação. Conectividade, mobilidade, ubiquidade. São Paulo: Paulus, 2010.

SCHULZ, Winfried. Die Konstruktion von Realität in den Nachrichtenmedien.Freiburg: 1976.

WOLF, M. Teorias da comunicação (6a Edição). Editora Presença: Lisboa, 2001.

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