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Plataformização da sociedade

  • earielteixeira
  • 16 de jul. de 2024
  • 15 min de leitura

Compreenda os conceitos essenciais desse fenƓmeno

Autor:Ā Eduardo Ariel

Contexto

O que torna as grandes empresas americanas de tecnologia poderosas e a governanƧa de suas plataformas complexa?


Nos últimos anos, as empresas de tecnologia transformaram produtos em serviços de dados onde os clientes pagam principalmente com suas informações pessoais e atenção. Os mercados, os setores públicos, as infraestruturas e os serviços públicos são atraídos para um ecossistema baseado em dados que é totalmente mercantilizado e cujo impacto cresce em linha com novos campos emergentes como a inteligência artificial e as tecnologias robóticas. As complexidades das plataformas estão cada vez mais em desacordo com os estreitos conceitos jurídicos e econÓmicos em que se baseia a sua governança.


Visando situar os Estudos de Plataforma, apresentamos como sua visada Ć© fortemente influenciada pelos Estudos de CiĆŖncia e Tecnologia – ou STS, na sigla em inglĆŖs – que se dedicam Ć s anĆ”lises dos regimes de poder, das prĆ”ticas e das materialidades que constituem a produção cientĆ­fica e os artefatos tecnológicos. Em consonĆ¢ncia com a origem transdisciplinar dos STS, notam-se diĆ”logos crescentes com variados campos do conhecimento, o que faz dos Estudos de Plataforma uma perspectiva analĆ­tica flexĆ­vel e potente.


Contextualização: Web 2.0 e Cultura da Participação

Com a chamada Web 2.0, inaugurou-se a partir de 2005 uma nova "lua de mel" entre os novos serviƧos online e as pesquisas em internet e cibercultura. Durante vĆ”rios anos, termos como "cultura da participação", "sabedoria das multidƵes" e "inteligĆŖncia coletiva" foram amplamente usados para se compreender um conjunto de prĆ”ticas e inovaƧƵes que prometiam "democratizar", "horizontalizar" ou "descentralizar" as relaƧƵes interpessoais, a polĆ­tica, a economia. Autores como Henry Jenkins, Clay Shirky e Pierre LĆ©vy sĆ£o alguns dos pilares das discussƵes que subsidiaram projetos e anĆ”lises sobre a ótica da colaboração entre pares (D’ANDRƉA, 2015).


Dez anos depois, o cenĆ”rio jĆ” era muito diferente. Ao longo dos anos 2010, as chamadas Big Five – Alphabet-Google, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft – se consolidaram como serviƧos infraestruturais e hoje centralizam cada vez mais atividades cotidianas e estratĆ©gicas. InfluĆŖncias em processos eleitorais, uso irrestrito de dados pessoais para fins comerciais e uso de algoritmos e bases de dados para perpetuar preconceitos e desigualdades sĆ£o algumas das questƵes que cada vez mais preocupam governos, empresas e sociedade civil.


A revelação em 2018 dos abusivos usos de dados oriundos do Facebook pela empresa Cambridge Analytica pode ser tomada como um marco em meio a uma sucessão de escândalos e incertezas protagonizados pelas plataformas online.

Essas organizaƧƵes e seus produtos digitais (essencialmente como Sas – Software as a Service) tĆŖm dimensƵes tecnopolĆ­ticas (mĆ­dias sociais - Twitter, Pinterest, YouTube etc.) ou das plataformas que atuam. Existe uma ubiquidade de suas presenƧas em diversos setores, tais como: saĆŗde (Fitbit), transporte (Uber) e educação (Coursera). Ɖ nesta virada crĆ­tica dos estudos de internet e cibercultura que se localizam os chamados Estudos de Plataforma, que buscam uma refinada articulação entre as dimensƵes tĆ©cnicas, polĆ­ticas e econĆ“micas que constituem as populares "redes sociais online".


Conceito de Rede

Para alĆ©m de termos como "rede de computadores" ou "sociedade em rede", a metĆ”fora da rede se destaca nos estudos em internet principalmente por ressaltar a possibilidade sociotĆ©cnica de perfis formalizarem suas interligaƧƵes atravĆ©s de recursos como seguir, curtir e compartilhar. Se voltarmos para o inĆ­cio dos anos 2000, vamos lembrar que no tempo do Orkut as redes sociais eram chamadas de "sites de relacionamento" justamente porque as discussƵes estavam centradas em como esses artefatos mediavam – e ressignificavam – os vĆ­nculos interpessoais por meio de recursos como adicionar um amigo ou mandar um scrap.


Defendemos aqui que, na contemporaneidade, os modos de se estabelecer vínculos na web não podem ser vistos fora de uma lógica de sociabilidade programada proposta pelas plataformas. Ao discutir as lógicas sociotécnicas da conectividade induzida pelo Facebook, Taina Bucher (2013b) ressalta que essa plataforma atua não só para materializar vínculos anteriores ou sugerir novos, mas é também corresponsÔvel pela emergência de uma nova concepção de amizade. Não se trata de atribuir aos artefatos tecnológicos o poder de controlar as prÔticas contemporâneas, mas sim de reconhecer que em suas lógicas materiais e econÓmicas, uma plataforma como o Facebook influi decisivamente no modo como compreendemos e gerimos nossas relações interpessoais, profissionais, com a vizinhança, etc.


Segundo princĆ­pios de campos como a AnĆ”lise de Redes Sociais (ARS), redes sĆ£o visualmente apresentadas como grafos que sĆ£o inscriƧƵes que tornam visĆ­veis como uma ou mais entidades – representadas por nós – se conectam umas Ć s outras atravĆ©s de arestas (RECUERO, 2017). Ancorados na TAR e em discussƵes afins, Venturini, Munk, Jacomy e colegas (2018) apontam que a rede pode ser tambĆ©m vista como uma forma de conhecimento que, quando associada Ć  estrutura modular das arquiteturas computacionais, se potencializa e multiplica. Conforme os autores, em ambientes como as plataformas online, "as conexƵes sociais se tornam mais materiais e, com isso, mais rastreĆ”veis" (VENTURINI; MUNK; JACOMY, 2018, p. 9). Por isso, "quanto mais mediada por tecnologias, mais a vida coletiva pode ser lida por meio da teoria das redes, mensurada pela AnĆ”lise de Redes e capturada em dados de rede" (VENTURINI; MUNK; JACOMY, 2018, p. 11).




Imagem usada pelo webjornal Business Insider para ilustrar a estrutura de dados do ā€œsocial graphā€ do Facebook. As aƧƵes sĆ£o convertidas em objetos passĆ­veis de serem processados na lógica de uma rede. DisponĆ­vel em: https://www.businessinsider.com/explainer-what-exactly-is-the-social-graph-2012-3.

Em outras palavras, as plataformas se apropriam das lógicas de conexĆ£o e as potencializam como parte de uma estratĆ©gia – comercial sobretudo – que visa incentivar usuĆ”rios a deixar rastros de suas relaƧƵes, preferĆŖncias, etc. Considerando essa concepção, parece-nos que Ć© grande o risco de, ao usarmos automaticamente o termo "rede social", enfatizarmos apenas a dimensĆ£o relacional das plataformas, inviabilizando os aspectos materiais, econĆ“micos, polĆ­ticos, etc. da conectividade online.


Na perspectiva dos Estudos de Plataforma – e dos campos teóricos que os subsidiam –, as plataformas nĆ£o sĆ£o meras intermediĆ”rias em que a sociedade se faz visĆ­vel e a partir das quais interaƧƵes sociais podem ser estudadas, mas sim ambientes que condicionam a emergĆŖncia de um social. Embora assimĆ©tricas, as articulaƧƵes aqui nĆ£o sĆ£o unidirecionais: alĆ©m de constituidoras do social, o Facebook, a Uber e a Netflix sĆ£o resultado das agĆŖncias mĆŗltiplas e sobrepostas que abrigam.


HÔ situações em que as controvérsias ou incertezas são desencadeadas e/ou protagonizadas pelas plataformas. Em primeiro lugar, lembram-se os escândalos recentes envolvendo o Facebook ou a greve dos motoristas da Uber. Nesses casos, vale explorar uma ampla e cuidadosa pesquisa documental sobre as transformações de suas políticas de governança, suas mediações algorítmicas e seus modelos de negócio, entre outros aspectos. Um segundo modo é quando as plataformas atuam para moldar discussões, conversações e mobilizações vinculadas a temÔticas ou acontecimentos específicos, como transmissões televisivas, declarações de autoridades ou campanhas eleitorais. Nesses casos, as plataformas não são o tema central das controvérsias, mas sim a ambiência em que os atores agem em busca de visibilidade.


Plataformas

Em um trabalho pioneiro, Tarleton Gillespie (2010) discutiu como o termo ā€œplataformaā€ vinha sendo estrategicamente usado por serviƧos como Google e YouTube para se venderem como meros ā€œintermediĆ”riosā€, isto Ć©, como artefatos neutros que permitiriam uma circulação mais aberta e democrĆ”tica de informaƧƵes e serviƧos. Dentre os ā€œterritórios semĆ¢nticosā€ do termo ā€œplataformaā€ mencionados por Gillespie, chamamos a atenção para a dimensĆ£o infraestrutural, que remete a plataformas de trem ou metrĆ“, e tambĆ©m para seu sentido polĆ­tico, em uma referĆŖncia Ć s (vagas) argumentaƧƵes das ā€œplataformas de governoā€ divulgadas nas campanhas eleitorais.


Ao desconstruir a estratĆ©gia discursiva das empresas, Gillespie (2010) contribuiu decisivamente para a constituição de um olhar analĆ­tico que considera o entrelaƧamento entre os interesses comerciais, as escolhas computacionais e os posicionamentos polĆ­ticos das plataformas. Um desdobramento importante dessa discussĆ£o trata da resistĆŖncia das ā€œempresas de tecnologiaā€ em serem reguladas como ā€œempresas de mĆ­diaā€ (NAPOLI; CAPLAN, 2018).


Ao falar sobre as lógicas das mídias sociais, Van Dijck e Poell (2013) apontaram quatro especificidades:

  1. Programabilidade – materializada atravĆ©s de códigos, APIs, algoritmos;

  2. Popularidade – baseada em rankings, por exemplo, e movida por uma ā€œeconomia de likesā€;

  3. Conectividade – que permite a personalização;

  4. Datificação – que subsidiaria, entre outras, a ideia de ā€œtempo realā€.


Em livro publicado cinco anos depois, Van Dijck, Poell e De Wall (2018, p. 4) afirmam que ā€œuma plataforma online Ć© uma arquitetura projetada para organizar interaƧƵes entre usuĆ”rios – nĆ£o apenas usuĆ”rios finais, mas tambĆ©m entidades corporativas e órgĆ£os pĆŗblicosā€. De modo ainda mais didĆ”tico, Van Dijck, Poell e Wall (2018, p. 9, grifo do autor) evidenciam os entrelaƧamentos entre as dimensƵes materiais, culturais e econĆ“micas das plataformas ao afirmarem que ā€œuma plataforma Ć© alimentada com dados, automatizada e organizada por meio de algoritmos e interfaces, formalizada por meio de relaƧƵes de propriedade orientadas por modelos de negócios e regidas por acordos de usuĆ”riosā€.


A centralidade das questƵes apontadas pelos Estudos de Plataforma para a compreensĆ£o de diferentes dinĆ¢micas contemporĆ¢neas se evidencia ainda em dois desdobramentos conceituais fundamentais para a agenda de pesquisa apresentada por este livro: a noção de ā€œplataformizaçãoā€ e a emergĆŖncia da ā€œSociedade da Plataformaā€.


O crescente intercĆ¢mbio de dados mediados pelas plataformas e a capilaridade dos modelos de negócios desenvolvidos por essas empresas tĆŖm como uma de suas consequĆŖncias o que a pesquisadora Anne Helmond (2015) chama de ā€œplataformização da webā€. Mais do que parceiros ou geradores de trĆ”fego, plataformas infraestruturais como Google e Facebook tĆŖm se afirmado como modelos de funcionamento computacional com base nos quais outros serviƧos da chamada open web passam cada vez mais a operar. Para funcionar (em termos tĆ©cnicos) e sobreviver (em termos econĆ“micos), blogs, sites pessoais, portais etc. sĆ£o levados a se adequar aos protocolos de acesso e intercĆ¢mbio de dados adotados pelas plataformas online.


Gerlitz e Helmond (2013) citam o hoje onipresente botĆ£o ā€œcurtirā€ lanƧado pelo Facebook em 2010 como um exemplo marcante desse processo. AtravĆ©s de ā€œsocial pluginsā€, websites passaram a se conectar ao Facebook, permitindo o intercĆ¢mbio e a comercialização de dados. InĆŗmeras outras plataformas incorporaram o ā€œlikeā€ desde entĆ£o, o que instituiu um modelo de trocas – ou seja, uma economia – baseado na conectividade e nos esforƧos de mensuração atravĆ©s de mĆ©tricas como popularidade e engajamento. Por outro lado, o Instagram – que pertence ao Facebook – anunciou, no inĆ­cio de 2019, que a soma de curtidas em uma postagem nĆ£o seria mais exibida para os seguidores de um perfil, o que exemplifica os constantes processos de ajustes e reposicionamento que caracterizam a atuação das plataformas online.


Plataformização

Para d’AndrĆ©a (2020), Academia.edu, Airbnb, Baidu, Coursera, Duolingo, Deliveroo, Facebook, Grindr, Instagram, Itch.io, LinkedIn, Uber e WhatsApp. Organizados em uma interrompida ordem alfabĆ©tica, esses serviƧos online listados sĆ£o bastante diferentes entre si e seguem sendo opacos – nĆ£o existe transparĆŖncia quanto ao seu modo de operar, abertura de código e sua capilaridade, tal como caixas-pretas (VilĆ©m Flusser 2018 e 2020). Algumas caracterĆ­sticas, no entanto, os aproximam, entre as quais o funcionamento baseado na produção e no intercĆ¢mbio de dados, as lógicas comerciais ancoradas no engajamento dos usuĆ”rios e os esforƧos para regular quais prĆ”ticas sĆ£o ou nĆ£o permitidas. Esses e os demais serviƧos que aqui serĆ£o denominados ā€œplataformas onlineā€ atuam fortemente para reorganizar as relaƧƵes interpessoais, o consumo de bens culturais, as discussƵes polĆ­ticas, as prĆ”ticas urbanas, entre outros setores da sociedade contemporĆ¢nea. Ou, como propƵem Van Dijck, Poell e de Wall (2018), da ā€œsociedade da plataformaā€. Aqui, como premissa, observa-se que artefatos tecnológicos e prĆ”ticas sociais se coproduzem. Assim, devemos voltar nossa atenção para os modos como, em meio a um complexo e assimĆ©trico jogo de poder, os usuĆ”rios e as materialidades se constituem mutuamente. Em outras palavras, devemos procurar entender tanto o modo como algoritmos, recursos tecnogramaticais – curtir, compartilhar etc. –, polĆ­ticas de governanƧa – como os termos de uso – etc. moldam as prĆ”ticas e as percepƧƵes dos usuĆ”rios, quanto as apropriaƧƵes criativas, tĆ”ticas e coletivas que recriam, cotidianamente, as plataformas.


Um aspecto que consolida e singulariza a ideia de ā€œplataforma onlineā€ Ć© a crescente adoção de uma arquitetura computacional baseada na conectividade e no intercĆ¢mbio de dados. Baseadas em robustas infraestruturas – em geral nomeadas como servidores ā€œna nuvemā€ –, as plataformas se consolidam a partir de um modelo centralizado de fluxos informacionais e financeiros. Por outro lado, a interoperabilidade entre as plataformas faz emergir um ā€œecossistemaā€ de plataformas (VAN DIJCK, 2013) que se articula de modo distribuĆ­do. Centralizar e, ao mesmo tempo, descentralizar Ć© apenas um dos ā€œparadoxosā€ que marcam a atuação das plataformas online. (VAN DIJCK; POELL; DE WALL, 2018, p. 13)


DimensƵes das plataformas online

Ɖ importante situar a emergĆŖncia dos Estudos de Plataforma e sua relação com a crise da sedutora retórica da colaboração sobre a qual a chamada Web 2.0 se constituiu. A grande concentração de serviƧos e dinheiro em cinco empresas – Alphabet-Google, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft – e os escĆ¢ndalos protagonizados por essas e outras plataformas sĆ£o fatores decisivos para uma crescente virada crĆ­tica nos estudos em internet e cibercultura. O foco agora se volta para as complexas e refinadas articulaƧƵes entre modelos de negócio, infraestruturas, bases de dados, algoritmos, regras de governanƧa e uma diversidade de usos que constituem o Twitter, o YouTube, a Uber e tantos outros serviƧos.


As diferenƧas conceituais entre os termos ā€œredes sociaisā€ e ā€œplataformasā€ tambĆ©m sĆ£o essenciais. Enquanto o primeiro termo enfatiza uma dimensĆ£o interacional, a perspectiva das plataformas busca ressaltar como as trocas sĆ£o moldadas pelos aspectos computacionais, econĆ“micos e polĆ­ticos da conectividade online.


Utilizando como modelo de anƔlise o material escrito por Jose Van Dijck no livro Culture of Connectivity (2013), seguem as cinco dimensƵes fundamentais das plataformas online:


  1. Ao se abordar ā€œDatificação e algoritmosā€, voltamo-nos para as arquiteturas computacionais das plataformas, que se constituem por meio de lógicas próprias de captura, processamento e intercĆ¢mbio de dados via Interfaces de Programação de AplicaƧƵes (em inglĆŖs, Application Programming Interfaces, ou APIs).

  2. A centralidade dos metadados, a busca por padrƵes e a adoção de modelos de aprendizagem de mĆ”quina sĆ£o algumas das questƵes mencionadas Ć  luz de conceitos como ā€œplataformização da webā€ (HELMOND, 2015) e ā€œdataĆ­smoā€ (VAN DIJCK, 2017). De forma complementar, discutimos como as mediaƧƵes algorĆ­tmicas instauram regimes de conhecimento a partir de mĆŗltiplas performatividades. Cada vez mais convocados para explicar e problematizar as plataformas, os algoritmos sĆ£o aqui tomados nĆ£o apenas como rotinas de programação que processam dados, mas principalmente como instĆ¢ncias que viabilizam ā€œuma leitura interessada de uma realidade empĆ­rica e ā€˜datificadaā€™ā€ (RIEDER, 2018, p. 127).

  3. Ao se abordar o tópico ā€œInfraestruturaā€, atentamos para a crescente atenção dedicada, pelos estudos em internet, Ć s bases polĆ­ticas e materiais sobre as quais se organiza a ā€œsociedade da plataformaā€. Servidores que oferecem serviƧos na ā€œnuvemā€, sistemas operacionais, navegadores de internet e cabos submarinos sĆ£o parte fundamental dos negócios das Big Five, que, nĆ£o por acaso, sĆ£o hoje denominadas ā€œplataformas infraestruturaisā€. As infraestruturas sĆ£o pensadas ainda como constituidoras de processos de mobilidade, de cidadania e de trocas afetivas.

  4. Os conceitos e definiƧƵes atrelados a ā€œmodelos de negócioā€ partem do pressuposto de que as plataformas sĆ£o protagonistas do regime capitalista contemporĆ¢neo. Apontamos de que maneira sua atuação reorganiza o funcionamento de vĆ”rios mercados, como do jornalismo, da mĆŗsica e do transporte. Outro aspecto fundamental Ć© como a datificação remodela os processos de compra e venda de espaƧos publicitĆ”rios, consolidando modelos como o da mĆ­dia programĆ”tica.

  5. Em "Governança", apontamos como as plataformas propõem e negociam seus modos de funcionamento visando lidar com questões diversas, como discursos de ódio, imagens de nudez ou circulação de fake news. Um extenso conjunto de regras, procedimentos, algoritmos e moderadores humanos é mobilizado para gerir e regular a "livre" circulação de ideias. A discussão em torno da governança do WhatsApp durante as eleições gerais de 2018 é um dos casos mencionados.


As lógicas e os constrangimentos mediados pelas plataformas moldam uma economia de mercado baseada em movimentaƧƵes financeiras transnacionais de forte carĆ”ter especulativo, o que acirra desigualdades e assimetrias em Ć¢mbitos locais e globais. Essas e outras especificidades da atuação econĆ“mica das plataformas sĆ£o detalhadas em pesquisas recentes sobre ā€œcapitalismo de plataformaā€ (SRNICEK, 2016), ā€œcolonialismo de dadosā€ (COULDRY; MEJIAS, 2019) e ā€œtrabalho plataformizadoā€ (VAN DOORN, 2017).


Uma das facetas mais evidentes da dimensĆ£o comercial das plataformas Ć© o crescente estĆ­mulo ao pagamento de assinaturas que dĆ£o acesso a conteĆŗdos exclusivos, sem interrupƧƵes de anĆŗncios e com funcionalidades extras. No auge da Web 2.0, propagou-se a ideia de que os serviƧos online seriam fundamentalmente gratuitos. Hoje, a adoção das plataformas como padrĆ£o para prĆ”ticas diversas como ouvir mĆŗsica e podcasts (Spotify), armazenar arquivos (Dropbox) ou ler artigos jornalĆ­sticos ou de opiniĆ£o (Medium) leva cada vez mais pessoas a pagar alguns dólares mensais para ter acesso pleno a serviƧos. Essa tendĆŖncia Ć© ainda mais efetiva na indĆŗstria audiovisual e resultou, no caso do YouTube, na adesĆ£o ao modelo de assinaturas. Entretanto, para compreendermos como as lógicas econĆ“micas das plataformas funcionam, precisamos voltar a falar em sua intrĆ­nseca relação com o armazenamento, processamento e intercĆ¢mbio dos dados fornecidos, de forma voluntĆ”ria ou nĆ£o, por seus diferentes tipos de usuĆ”rio. Nas palavras de Bernhard Rieder (2018, p. 138), a ā€œGoogle pode ser uma empresa de publicidade em primeiro lugar, mas em segundo lugar Ć© empresa de estatĆ­sticaā€, o que ressalta a indissociabilidade entre as estratĆ©gias comerciais e a datificação como forma hegemĆ“nica de conhecimento. Desde 2018, esse Ć© o caso do Instagram, que justifica as restriƧƵes com o argumento de preservar a ā€œprivacidade e seguranƧaā€ de seus usuĆ”rios. No caso do Twitter, as restriƧƵes na pioneira API aberta a terceiros (2006) sinalizaram uma mudanƧa no modelo de negócios da plataforma, que passou a se considerar uma ā€œempresa de informaçãoā€ (VAN DIJCK, 2013).


Nas plataformas, informaƧƵes demogrĆ”ficas – idade e localização –, de hĆ”bitos e preferĆŖncias – lugares frequentados, artistas preferidos – e de uso das próprias plataformas – com que frequĆŖncia se estĆ” online, por exemplo – sĆ£o cruzadas com o intuito de traƧar perfis segmentados ou de prever comportamentos. A promessa Ć© atender a ā€œqualquerā€ demanda informacional de um parceiro comercial. Ɖ importante atentarmos para o modo como as plataformas, mais do que revelar, constituem novos pĆŗblicos a partir dos dados que priorizam e das preferĆŖncias do mercado.


A ferramenta ā€œAudience Insightsā€ do Facebook Ć© um bom exemplo dessa dinĆ¢mica. Mediante login com a conta de um perfil ou de uma pĆ”gina, Ć© possĆ­vel fazer vĆ”rias simulaƧƵes visando Ć  ā€œcriação de pĆŗblicosā€ especĆ­ficos em função de ā€œinteressesā€ – como ā€œalimentosā€ – ou atividades recentes – como estar ā€œlonge da famĆ­liaā€ ou em um ā€œrelacionamento Ć  distĆ¢nciaā€. O processamento algorĆ­tmico dos dados permite a delimitação de ā€œpĆŗblicos calculadosā€ (GILLESPIE, 2018a) para os quais sĆ£o criados e direcionados novos anĆŗncios no Facebook.


Com frequência, esses mecanismos de segmentação dão margem para o direcionamento de anúncios com viés claramente racista ou xenófobo. Em 2017, uma reportagem do site ProPublica revelou que o Facebook oferecia, como possibilidade de segmentação de público, categorias antissemitas como "Jew Hater" e "How to burn Jews" ("odiador de judeus" e "como queimar judeus", em uma tradução livre para o português) (ANGWIN; VARNER; TOBIN, 2017). JÔ o BuzzFeed descobriu que o Google permitia a associação de anúncios a expressões racistas como "black people ruin neighborhoods" ("negros arruínam vizinhanças", em uma tradução livre) (KANTROWITZ, 2017). Após as denúncias, as plataformas afirmaram que ajustes foram feitos em seus sistemas.


De forma complementar ao uso comercial da datificação e dos processos algorítmicos, devemos entender o sucesso econÓmico das plataformas a partir de como elas articulam diferentes mercados e serviços que anteriormente funcionavam de modo mais fragmentado. Em diÔlogo com estudos organizacionais e de finanças, Poell e Nieborg (2018) apontam para a consolidação de "plataformas multilaterais", isto é, de serviços online que baseiam seus modelos de negócio na articulação com outros serviços e mercados.


Isso ocorre com as instituiƧƵes jornalĆ­sticas, que dependem das plataformas infraestruturais para fazer circular e remunerar suas produƧƵes, e tambĆ©m com os diferentes setores do entretenimento – games, mĆŗsicas, produƧƵes audiovisuais –, ou ainda instituiƧƵes ligadas Ć  mobilidade e Ć  ocupação do espaƧo urbano (Uber e Airbnb). Outro exemplo Ć© o do LinkedIn: grande parte do sucesso dessa plataforma estĆ” na sua capacidade de articular relaƧƵes entre trabalhadores e empresas.


A automatização dos processos de compra e venda de espaƧos publicitĆ”rios Ć© um bom exemplo de como as plataformas se posicionam de forma multilateral. A consolidação da "mĆ­dia programĆ”tica" (SILVEIRA; MORISSO, 2018) dĆ” Ć s plataformas infraestruturais uma posição privilegiada entre os atores do segmento. Na publicidade online, o crescimento exponencial de anunciantes e publishers – como blogs e portais – levou Ć  formação de um complexo ecossistema de serviƧos que visa integrar a compra e venda descentralizada de anĆŗncios. Empresas como o Google nĆ£o só oferecem serviƧos complementares para anunciantes (AdWords) e para produtores de conteĆŗdo (AdSense), mas tambĆ©m reorganizam relaƧƵes atravĆ©s de uma ferramenta que unifica diferentes serviƧos de publicidade online (DoubleClick Ad Exchange).


NĆ£o Ć© apenas com base nos dados obtidos pelas plataformas que perfis de usuĆ”rios sĆ£o traƧados e campanhas sĆ£o planejadas. Uma base de dados com informaƧƵes pessoais – sobretudo telefone e CPF – de clientes atuais de uma empresa pode ser enviada para uma plataforma como o Facebook, que a cruzarĆ” com os perfis dos usuĆ”rios cadastrados e recomendarĆ” novos pĆŗblicos potenciais.


São também as plataformas que operacionalizam a exibição dos anúncios e fornecem os dados para medir sua eficÔcia. Essa relação se dÔ a partir de leilões em "tempo real", isto é, ganha mais visibilidade quem pagar mais, o que acirra uma competitividade baseada nas opacidades algorítmicas e, potencialmente, em processos especulativos. Também funciona como "mídia programÔtica" o modelo da "publicidade nativa", que consiste na exibição de conteúdos de terceiros junto ao conteúdo dos publishers contratantes. O serviço "Taboola" é um dos mais populares no Brasil e no exterior.


Outro exemplo interessante de reorganização de mercados é o modo como o YouTube lida com a remuneração por direitos autorais. A simples proibição de circulação de vídeos protegidos por copyright não é o único modo de a plataforma lidar com a questão. Através do software Content ID, gravadoras, editoras e outras instituições são incentivadas a cadastrar suas músicas, filmes e outros produtos. Essa base de dados hospedada pelo YouTube permite que vídeos com conteúdos proprietÔrios sejam rapidamente identificados. Em vez de pedirem a exclusão do vídeo, os gestores podem optar por serem remunerados ou por terem acesso aos dados do vídeo postado por terceiros (MARCHI, 2018).


Novo paradigma de "desenvolvimento"

Em suma, a plataformização Ć© um processo semelhante Ć  industrialização ou eletrificação, referindo-se a uma transformação multifacetada das sociedades globalizadas (Poell et al., 2019). A ascensĆ£o de ecossistemas de plataformas corporativas e controladas pelo Estado derrubou o ideal outrora popular de uma Internet universal e neutra que liga o mundo. AtĆ© certo ponto, tambĆ©m minou as distinƧƵes clĆ”ssicas entre Estado, mercado e sociedade civil – conceitos que ainda sĆ£o vitais na demarcação de acordos governamentais. Os sistemas globais de informação dominados por aparatos tecno-corporativos substituem agora os poderes econĆ“micos das naƧƵes; sua influĆŖncia ultrapassa indiscutivelmente a influĆŖncia polĆ­tica dos governos e administraƧƵes eleitos quando se trata de regular as democracias e a vida cĆ­vica (MOORE, 2018). Embora as plataformas tecnológicas controlem cada vez mais as portas de acesso a todo o trĆ”fego da Internet, Ć  circulação de dados e Ć  distribuição de conteĆŗdos – tornando sociedades inteiras dependentes dos seus sistemas – conseguiram esquivar-se ao escrutĆ­nio regulamentar convencional (GiLLESPIE, 2018). Os quadros regulamentares nacionais e supranacionais (ou seja, a UniĆ£o Europeia (UE)) normalmente examinam um aspecto da governanƧa, como a concentração do mercado, a liberdade de informação ou os direitos de privacidade, mesmo quando a plataformização atravessa quadros jurĆ­dicos e continentes.

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