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Cultura digital

Atualizado: 15 de mar. de 2023

Linguagens híbridas, tecnologias da inteligência e sociedade

Autor: Eduardo Ariel



Os estudos sobre hibridização modificaram o modo de falar sobre identidade, cultura, diferença, desigualdade, multiculturalismo e sobre pares organizadores dos conflitos nas ciências sociais: tradição-modernidade, norte-sul, local-global. Muitos antecedes decorrem dos intercâmbios entre sociedades; de fato, Plínio, o Velho, mencionou a palavra ao referir-se aos migrantes que chegaram a Roma em sua época. Historiadores e antropólogos mostraram o papel decisivo da mestiçagem no Mediterrâneo nos tempos da Grécia clássica (Laplantine & Nouss), enquanto outros estudiosos recorreram especificamente ao termo hibridação para identificar o que sucedeu desde que a Europa se expandiu em direção à América (Bernand; Guizinski). Mikhail Bakhtin usou-o para caracterizar a coexistência, desde o princípio da modernidade, de linguagens cultas e populares. No caso da modernidade postergada na Americana Latina, Anderson (1984) reitera a tendência de vê-la como um eco tardio e deficiente dos “países centrais”, seja em relação a revolução industrial ou os movimentos artísticos. O último persistiu como “culto” dessa ideologia estética, sem obras nem artistas do mesmo vigor, impedindo construções de projetos nacionais como nações livres e independentes.


Em busca de uma proposição inicial para o termo Canclini (2019) entende hibridização como processos socioculturais nos quais estruturas discretas, que existem de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. Cabe esclarecer que as estruturas chamadas discretas foram resultado de hibridações, razão pela qual não podem ser consideradas fontes puras. Como por exemplo: o “spanglish” nascido nas comunidades latinas dos Estados Unidos e propagado pela internet. Ademais, uma das vertentes etimológicas do conceito advém da biologia e da botânica, onde desde que 1870 Mendel mostrou o enriquecimento produzido por cruzamentos genéticos de plantas diferentes, aumentado resistência, crescimento e valor nutritivo. Já Said e James Clifford sustentam, em uma visão moderna, que os discursos da diáspora e da hibridação permitem pensar a vida contemporânea como “uma modernidade de contraponto” em vista ao deslocamento, nomadismo e peregrinação. Assim sendo, ao revisitar um pouco do que fora apresentado cabe tratar a hibridização como um termo de tradução de mestiçagem, sincretismo, fusão e outros vocábulos, designando misturas particulares em constante movimento – tal como pressuposto da lógica digital faz.


O momento em que mais se estende a análise da hibridização aos diversos processos culturais em mundo interconectado, se dá por volta do final do século XX e início do XXI, quando assume-se o aspecto volátil, dinâmico e incerto das mudanças constantes na sociedade midiatizada. Aqui também estão inclusos os produtos das tecnologias avançadas e processos sociais modernos ou pós-modernos. Ao mesmo tempo, se discute o valor de tal acepção junto com os estudos sobre narrativas indenitárias que dão conta dos processos de hibridação. Por conseguinte, as sedimentações organizadas por similitude, em conjuntos históricos mais ou menos estáveis (etnias, nações, classes) se reestruturam em meio aos conjuntos interétnicos, transclassistas e transnacionais. Segundo Beck (2018) as diversas formas de apropriação com que cada membro desses grupos interage com mensagens produz indivíduos interculturais, capazes de elaborarem interfaces relacionadas com as indústrias culturais de acesso e de fuga da modernidade, quase como se fosse uma segunda vertente.


Ainda assim, o modelo de interfaces com linguagens híbridas foi utilizado para descrever processos interétnicos e de descolonização (Bhabha, Young), globalizadores (Hannertz), viagens e cruzamento de fronteiras (Clifford), fusões artísticas, literárias e comunicacionais (De La Campa, Hall, Martín Barbero, Papastesgiadis, Webner). No tocante a sua possível contribuição ao pensamento político, parece que a hibridização não é sinônimo de fusão sem contradições, mas sim poderia ajudar a dar conta de formas particulares de conflito geradas na interculturalidade recente em meio a decadência de projetos nacionais de modernização da América Latina. Sendo assim, o movimento intensificado de acesso à maior variedade de bens e de serviços, facilitado pelos movimentos globalizadores, parece sufocar o folclore e diversos outras multiculturalidades criativas em terras latinas, promovendo outro tipo de colonização junto com o incremento das TICs ubíquas.


Ao discorrer sobre o campo comunicação Santaella (2010) afirma que na sociedade contemporânea os processos midiatizados se fazem presentes de maneira ubíqua tanto como móvel. Desse modo, quase todos os relacionamentos humanos e sociais carregam uma “penetrabilidade” pervasiva que faz do corpus e do aparato midiático processos interacionais crescentes de referência, mesmo nas comunicações interpessoais – quiçá nas instâncias mais amplas, mediadas por editorias ou inteligências híbridas (humano-máquinas).

A rigor, a produção visual por meios computacionais incrementou-se a tal ponto que os cálculos são o cerne de sua matriz, para Santaella (2003) tais avanços chegaram em um patamar de hibridização na última década que a palavra “imagem” está longe de ser suficientemente ampla para poder abarcá-la, de modo que a imagem fixa, em movimento ou animada é apenas um elemento ou fator complexo, já que ela expressa em sua completude ou em parte uma interface gráfica com o usuário, que inclui um conjunto de técnicas com controle interativo, manipulação direta, pontos de vista, visualização de bases de dados e simulação de espaço navegável. Dada tal múltipla característica Manovich (2001) chama de metamídia, ou seja, mídia + software.


Ainda conforme Miranda (2003), um dos principais indicadores do desenvolvimento da Sociedade da Informação é a penetrabilidade das tecnologias de informação e comunicação na vida diária das pessoas e no funcionamento e transformação da sociedade como um todo. Nela, a comunicação e a informação tendem a permear as atividades e os processos de decisão nas diferentes esferas da sociedade. Já em um contexto globalizado, o volume de conteúdos operados por um país passa também a medir a sua capacidade de influenciar ou se influenciado. Assim sendo, caso exista uma maior dependência de produtos internacionais (softwares, aplicativos e jogos) sobre o desenvolvimento daqueles com cultura nacional, forma-se um novo tipo de colonização, em virtude de uma imagem de modernidade apresentada por corporações transnacionais e não mais somente por países europeus ou anglo-saxões.


Assim, urge emergir o ser humano como agente de resistência e de contrainformação. O papel dos usuários se manifesta como agente dessa mudança, especialmente quando ele compreende o sentido amplo da cidadania – educado criticamente, pleno e seguro dos seus direitos e deveres. Ao retornar para outro ponto de discussão, de modo relacionado Lévy (2002) e Miranda (2003) versam sobre a imprevisibilidade dos caminhos da inteligência humana. Sendo esse um poderoso instrumento para reorganização e automatização do trabalho intelectual, relacionando-a com o vertiginoso desenvolvimento e uso das TICs.

Para Di Felice, Roza, Pereira et al. (2017), nos últimos anos no Brasil e no mundo, a explosão do acesso à internet e a difusão de diversas formas de conectividade promoveram o surgimento de uma genuína maneira de participação – nova tanto pelo lugar singular de sua origem e, também, em seu formato de organização ou atuação. Assim, retornando no tempo, talvez seja possível questionar o que há de comum entre as manifestações de junho de 2013 do Brasil, a Primavera Árabe, os movimentos dos indignados, com Anonymous, Occupy Wall Street e os diversos números de movimentos espalhados pelo mundo? Seu lugar de origem e sua singular ecologia de ação. Todas essas experiências, diversas em seus contextos culturais e políticos, originaram-se on-line, em blogs, sites ou redes temáticas que, de forma autônoma, disseminaram suas reivindicações, seus protestos, alcançando em breve tempo proporções estendidas que, em muitos casos, superaram fronteiras nacionais, juntando indivíduos e grupos diversos por extração social e visões políticas.


Segundo Di Felice, Roza e Pereira (2017) o net-ativismo é uma nova forma de relacionamento humano com redes digitais. Delineiam-se, assim, as características de um tipo de ação já não realizada por um único sujeito nem linearmente direcionada a uma finalidade predeterminada, mas reticular, desenvolvida no interior de um ecossistema complexo pela colaboração de diversos actantes (circuitos informativos, interfaces, mídias, corpos, paisagens etc.). A sinergia dos conjuntos de atores passa a modificar o desfecho de uma ação por meio de suas interações, na medida em que se conectam e coagem. Consequentemente, mais que expressar uma forma sistêmica, as formas de net-ativismo e a ação reticular apresentam-se como a expressão de um novo tipo de ecossistema atópico, em que os elementos humanos, tecnológico-informativos e ambientais interagem constituindo uma hipercomplexidade sinérgica e reticular. Surge a necessidade de pensar uma nova modalidade de ação – biótica, técnica e informativa ao mesmo tempo – e um tipo de meio ambiente original – interativo e dinâmico –, que é possível habitar somente por meio de interações tecno-humanas, reticulares e colaborativas. Além de uma transformação comunicativa, a forma reticular, apresenta-se como uma ecologia inédita.


Para Lévy (2002), o meio digital estende ou democratiza a liberdade de expressão, pois a publicação já não passa pelo crivo de comitês editoriais, produtores e outros diretores dos canais que controlavam os mass media. Como resultado, há uma perda progressiva do monopólio dos gatekeepers para comunidades temáticas descentralizadas. Além do lugar de origem e da complexa ecologia de interação, tais grupos expressam outra importante característica comum - a forma de rede. Dela se nota alguns efeitos de tensionamento incutidos nos âmbitos geográfico, cultural e político. Por terem nascido on-line, em grupos temáticos, de agregações espontâneas de indivíduos conectados, tais formas de conflitualidade apresentam-se descentralizadas, sem uma hierarquia formal, autônomas e independentes das instituições tradicionalmente mediadoras dos conflitos (partidos, sindicatos, movimentos sociais organizados etc.). Além de uma narrativa explicitamente adversa a qualquer tipo de líder e de ideologia política moderna, tais agentes de debate primam pelo anonimato e a disseminação de ações coletivas. O que o fenômeno do net-ativismo e as práticas de participação em redes conectadas expressam é a experimentação de uma nova era de engajamento e de ativismo que, superando as formas ideológicas modernas, rejuvenescem o debate ao se fundirem em diálogos contínuos com os dados, os dispositivos móveis e as redes de informação. Assumindo, consequentemente, uma forma emergente e temporária.


Diante dessas alterações um novo léxico emerge da teoria do ator-rede inspirada na microssociologia de Gabriel Tarde, sendo proposta por Bruno Latour (2012) em conjunto com seus colegas Michel Callon e John Law. Eles defendiam a ideia de que o social já não seria uma totalidade feita de estruturas, instituições e grupos, mas resultado do contínuo devir de processos de conexões. Daí a necessidade de passar do estudo do social para o estudo dos coletivos e, consequentemente, da sociologia para as ciências das associações. Desse modo, outra noção de social tem de ser descoberta: bem mais ampla do que a usualmente chamada por esse nome e, ao mesmo tempo, estritamente limitada à busca de novas associações e ao esboço de seus agregados. Esse é o motivo pelo qual o social poderia ser definido não como um domínio especial, uma esfera exclusiva ou um objeto particular, mas apenas como um movimento peculiar de reassociações e reagregações. Nessa dimensão a ação deve ser pensada como o resultado do conjunto de ações construídas de forma colaborativa com os demais actantes, humanos e digitais - no interior das dinâmicas associativas.


Em concordância Lévy (2002) destaca que a condição primordial é evidentemente humana: trata-se da alfabetização na inteligência coletiva e das competências em gestão estigmérgica dos conhecimentos dos participantes da esfera pública. Tais formulações dialogam com Miranda (2003) e Castells (1979) na formação de um novo cidadão, dentro dos conceitos de necessidade-competências informacionais. Mas essas qualidades humanas devem ser pensadas em articulação com o desenvolvimento de tecnologias intelectuais-críticas e de modos de comunicação ainda inéditos, que, mais que outros, saberão explorar a disponibilidade de dados e o poder de cálculo, doravante ubiquitários no médium digital. Ademais, ela deveria mobilizar os métodos e os resultados da informática humanista (digital humanities) e da gestão distribuída de conhecimentos. No plano da construção de identidades subjetivas, a comunicação política poderia abrir caminho para voz entre os diversos estilos de conversa criativa que emergem e concorrem entre si nas redes digitais.


Por fim, a análise desses processos, articulados com estratégias de reconversão do ciberespaço em novas plataformas de participação pública, demonstra que a hibridização interessa especialmente aos setores populares que necessitam desses não-locais de fala e de protesto. Esses processos incessantes, variados de hibridização levam a relativizar a noção de identidade, dando vazão ao sentido fluído. Ademais, põe-se em evidência o risco de delimitar identidades locais somente como partes da sociedade nacional ou globalizada. Quando se define uma identidade mediante um processo de abstração de traços (língua, tradições, condutas estereotipadas), frequentemente se tende a desvincular essas práticas da história de misturas em que se formaram ao longo dos anos. Como consequência, padroniza-se suas particularidades ao unificar o modo de entendê-las. Desse modo, são rejeitadas ricas nuâncias e costumes heterodoxos, seja na falar da língua, no fazer musical ou na interpretação das tradições. Acaba-se, em síntese, obturando a possibilidade de modificar a cultura e a política pasteurizada globalmente, por conseguinte, o meio digital submerge nas questões ordinárias do cotidiano.


Referências

ANDERSON, P. Modernity and revolution. New Left Review, n. 144, março - abril de 1984.

BECK, U. A metamorfose do mundo: Novos conceitos para uma nova realidade. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2018.

BEIGUELMAN, G. Políticas da imagem (p. 2). Ubu Editora. Edição do Kindle: 2021.

CANCLINI, N. G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Ed. USP, 2019.

CASTELLS, M. The Urban Question: A Marxist Approach. Cambridge: The MIT Press, 1979.

DI FELICE, M.; ROZA, E.; PEREIRA, E. (orgs.). Net-ativismo. Campinas, SP: Papirus Editora. Edição do Kindle, 2017.

LÉVY, P. Cyberdémocratie. Paris: Odile Jacob, 2002.

MANOVICH, L. The language of new media, Cambrige, Mit Press, 2001.

MIRANDA, A. Ciência da informação: teoria e metodologia de uma área em expansão. Brasília: Editora Thesaurus, 2003.

SANTAELLA, L. A ecologia da comunicação: conectividade, mobilidade e ubiquidade. São Paulo: Ed. Paulus. Coleção Comunicação, 2010.

SANTAELLA, L. Culturas e artes do pós-humano. Da cultura das mídias à Cibercultura. São Paulo: Ed. Paulus. Coleção Comunicação, 2003.




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