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Imagem & Tecnologias da Comunicação

Atualizado: 15 de mar. de 2023

Cultura visual, mediação e experiência estética nos debates contemporâneos

Autor: Eduardo Ariel



Para Arantes (2018) no interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência. Não é de surpreender que o ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, escrito por Benjamin (2012), ainda sirva de subsídio para as discussões contemporâneas que dizem respeito às produções artísticas em mídias digitais. Nesse famoso ensaio, o filósofo tenta detectar as modificações estéticas trazidas para as manifestações artísticas pelo advento da reprodutibilidade técnica. Em consonância, Santaella (2010) explicita o status da configuração pictórica e imagética da sociedade atual, em retrospectiva, ao relacioná-la com o desenvolvimento e sofisticação dos meios de impressão gráfica. Para ela cada vez mais o discurso verbal está se entremeado com imagens em combinatórias das mais variadas, sejam: as enciclopédias, os livros ilustrados e, principalmente, os jornais tanto como as revistas.


De meados do século XX para cá, a era das mediações computacionais e o remarcável crescimento da complexidade de seus processamentos, se deram pela mutação radical e contínua profusão nos processos de produção da imagem - em que os efeitos dos mass media e sua ação na construção da imagem social parecem residir em sugestionamento temáticos. Haja vista que muitas deles são simulacros da representação da realidade, em um ecossistema midiático produtor de veículos-leitores que se misturam.


Antes da Segunda Guerra Mundial, a imprensa, o rádio e o cinema forjavam ambientes estético-afetivos nacionais relativamente compartimentados. A “sociedade do espetáculo” da segunda metade do século XX, dominada essencialmente pela televisão, pelas revistas, pelo cinema e pela indústria do disco, começou a transnacionalizar a esfera pública e a multiplicar os canais. A esfera pública do século XXI, dominada pelo médium digital, é decididamente pluralista e efetivamente transnacional – completando o exercício de anos antes. De mesmo modo, como quase todos os relacionamentos humanos e sociais carregam uma “penetrabilidade” pervasiva que faz do corpus e do aparato midiático processos interacionais crescentes de referência, mesmo nas comunicações interpessoais – quiçá nas instâncias mais amplas, mediadas por editorias ou inteligências híbridas (humano-máquinas). Deles o mass media sugestiona temas modeladores da realidade para leitores, espectadores e actantes.


Essa perspectiva crítica sobre a ação e seus significados sociais difundem-se na nossa época por intermédio de uma ordenação sistêmica com posições heterogêneas. Todas permeadas por conflitos dialéticos oriundos da imagem enunciada e percebida, donde seus sentidos estão circunscritos em volta de três significados principais decorrentes da ação da “crise”, seja ela: sedutora, artística e política. Os três sentidos serão abordados ao longo do texto.


O significado da crise da ação sedutora encontra, entre outras, a importante contribuição de J. Baudrillard, segundo o qual o excesso de informações veiculadas pelo conjunto da media na sociedade seria responsável pela transformação da sociedade da informação em uma sociedade “afásica”, na qual comunicar se tornaria impossível. Para Baudrillard (2019) tal contexto traria consigo a impossibilidade da ação sedutora e a sua substituição pelo ato estuprador. Desse modo, as próprias imagens publicitárias, portadoras e símbolos da cultura midiática da sedução, já não conseguiriam enganar e seduzir como manifestação de estéticas que já não reproduzem o mundo, mas o recriam e o reinventam. Tal condição constitui uma peculiaridade do nosso tempo e se estende, portanto, a todo o social, que passa a ser substituído por sua simulação por meio da multiplicação dos signos “que se trocam entre si sem mais trocarem algo de real”.


Em um período de uma ampla midiatização Santaella (2010) indica que a arte talvez possa ser vista como uma forma de pensar o mundo, decerto um exercício de tensionamento do real, conforme os trabalhos de Eisenstein a Antonioni, de Rejane Cantoni e Lucas Bambozzi a Harum Farocki, passando por Adam Harvey e Trevor Paglen. Ademais, o intermeio propiciado pelo campo artístico quando dialoga com o sentido de mass media, usualmente os converge para os seguintes temas emergentes nos debates contemporâneos: as transformações do olhar, as estéticas da vigilância, a vida urbana mediada por imagens, as novas formas de exclusão – como o racismo algorítmico –, a cultura da memória do tempo do digital e a pandemia das imagens do coronavírus no Brasil e no mundo. Ainda assim, um pressuposto sedutor comum emerge: as imagens tornaram-se as principais interfaces de mediação do cotidiano. Tal pressuposto se dá pelos sentidos semiológico, social e político.


Para Lévy (2002), as instancias usais de poder sofreram alguns abalos recentes com o incremento de usuários da internet. O médium digital tanto estende a liberdade de escuta como democratiza formas de expressão na esfera pública por, ao menos, três razões: econômica, técnica e institucional. Econômica, porque podemos publicar textos, imagens, músicas, softwares e dados em geral, destinados a uma audiência potencialmente planetária a custo zero ou muito baixo. Técnica, em seguida, porque a utilização de ferramentas digitais de comunicação quase já não requer competências em programação ou em formatação. Institucionalmente, enfim, porque a publicação já não passa pelo crivo de comitês editoriais, editores, produtores e outros diretores dos canais que controlavam as antigas mídias. Como resultado, há uma perda progressiva do monopólio dos gatekeepers, dos mediadores de informação e dos mediadores culturais tradicionais.


Segundo Di Felice, Roza e Pereira (2017) o net-ativismo e o conjunto de ações colaborativas que resultam da sinergia de atores de diversas naturezas, pessoas, circuitos informativos, dispositivos, redes sociais digitais, territorialidades informativas, apresenta-se, segundo essa perspectiva, como a constituição de um novo tipo de ecologia (eko-logos) não mais opositiva e separatista, na qual uma dimensão ecossistêmica reúne seus diversos membros em um novo tipo de social. Ele não está limitado ao âmbito humano dos socius, mas expandido às demais entidades técnicas, informativas, territoriais, de forma reticular e conectiva. Delineiam-se, assim, as características de um tipo de ação já não realizada por um único sujeito nem linearmente direcionada a uma finalidade predeterminada, mas reticular, desenvolvida no interior de um ecossistema complexo pela colaboração de diversos actantes (circuitos informativos, interfaces, mídias, corpos, paisagens etc.).


Diante dessa nova perspectiva, sua compreensão necessita de um novo léxico semântico. Nessa direção vai a contribuição da teoria do ator-rede, proposta por Bruno Latour e seus colegas Michel Callon e John Law, cuja ambição é aquela de estudar o social não mais com base no conforto dos conceitos teóricos desenvolvidos pelas ciências sociais, mas pela observação dos tipos de agregações reticulares que surgem em volta de controvérsias. Inspirados na microssociologia de Gabriel Tarde, os criadores de tal abordagem defendem a ideia de que o social já não seria uma totalidade feita de estruturas, instituições e grupos, mas resultado do contínuo devir de processos de conexões. Daí a necessidade de passar do estudo do social para aquele dos coletivos e, consequentemente, da sociologia para as ciências das associações. Segundo Latour (2004) esse é o motivo pelo qual o social pode ser entendido não como um domínio especial, uma esfera exclusiva ou um objeto particular, mas apenas como um movimento peculiar de reassociações e reagregações. Nessa dimensão, a ação deve ser pensada como o resultado do conjunto de ações construídas de forma colaborativa com os demais actantes, humanos e não, no interior das dinâmicas associativas.


Horkheimer (2007) adiciona outro componente relevante para o debate, pois diversos fenômenos sociais seguem associados à luta pela felicidade. Os oprimidos são motivados não por uma concepção positiva da felicidade, mas sim, pela esperança de se libertar do sofrimento. A ideia de que os seres humanos possuem um desejo interno de superar o sofrimento advém das teorias de Freud. Esse desejo pela felicidade pode se manifestar como um sentimento de compaixão por outros: deseja-se a felicidade de outras pessoas. O desejo de superar seu próprio sofrimento, aliado ao sentimento de compaixão por outros, deveria motivar os oprimidos a se unirem e a trabalharem juntos em prol de uma mudança social positiva. A existência de um sofrimento compartilhado pode levar a uma mudança social revolucionária.


Os últimos anos no Brasil e no mundo apresentaram alterações significativas no ecossistema político e cosial, para Di Felice, Roza, Pereira et al. (2017), na explosão do acesso à internet e a difusão de diversas formas de conectividade promoveram o surgimento de uma nova forma de participação – tanto pelo lugar singular de sua origem, como também em seu formato de organização ou atuação. Como exemplos pode-se lembrar das manifestações de junho de 2013 do Brasil, da Primavera Árabe, dos movimentos dos indignados, com Anonymous, do Occupy Wall Street etc. Elas têm configurações comuns, desde seu lugar de origem até sua singular ecologia de ação. Além disso, superaram fronteiras nacionais, juntando indivíduos e grupos diversos por extração social e visões políticas aderentes.


O fenômeno das práticas de participação em redes conectadas evidencia a experimentação de uma nova era exploração do ciberespaço, inaugurando uma complexa ecologia de interação síncrona entre os espaços on-line e off-line, especialmente quanto ao debate político como cena transmissível e co-experienciada. Desse modo, formas de conflitualidade nos diversos âmbitos geográficos, culturais e políticos parecem expressar outra importante característica comum: o formato de rede - descentralizadas, sem uma hierarquia formal, autônomas e independentes das instituições tradicionalmente mediadoras dos conflitos (partidos, sindicatos, movimentos sociais organizados etc.). Além de uma narrativa explicitamente adversa a qualquer tipo de líder e de ideologia política moderna, tais formas de conflitualidade preferem o anonimato e a disseminação de ações coletivas emergentes.


Diante desse novo contexto tecnológico e comunicativo múltiplas vertentes de ativismo e debate coletivo emergentes nas redes digitais, surgem com alcunhas originais. Em geral, muitas são designadas como “net-ativismo”, tomando sua pluralidade e suas especificidades tecnológicas, sociais, culturais como cerne. Segundo Di Felice, Massimo (2017) as redes de ação em que atores passam se cruzam na narrativa, desenvolveram tal nível de complexidade relacional que resulta, consequentemente, em uma situação que parece improvável pensar em um único actante como o promotor principal das ações sucessivas, ou em uma origem específica da ação. Para Negroponte (1995) o conceito dos “sistemas abertos” é vital, um conceito que exercita a porção empreendedora de nossa economia e desafia tanto os sistemas proprietários quanto os vastos monopólios.


O significado da crise da ação política no interior do pensamento europeu é abordado ainda por Baudrillard (2019), ao comentar a dimensão não política dos atentados terroristas, caracterizada pelo desaparecimento da estratégia da ação militar. Por isso, a ação terrorista já não tinha em seu objetivo a conquista territorial, própria das ações guerrilheiras, mas, ao contrário, encontrava sua forma maior em sua dimensão midiático-imagética. Aspecto, este, evidente, seja na repercussão midiática do atentado. Tal tipo de guerra se manifestava, portanto, “como prolongamento da ausência da política por outros meios”. Disso decorre uma séria de questões, tais como: o espetáculo midiático-imagético das cenas de guerra, regimes políticos não territoriais e sistemas militares organizados como corporações assumindo o simulacro de democracia – em oposição a arte surge como agente de reflexão, contrainformação e resistência.


O caráter ecológico da ação e sua complexidade nos levam, portanto, a pensar nela tanto além da sua dimensão racional, subjetiva, teleológica e política (Weber, Habermas), quanto da perspectiva estruturalista (T. Parsons, R.K. Merton). Por conseguinte, abrindo a nossa interpretação em direção a uma perspectiva plural e colaborativa, na qual os actantes humanos e os não humanos passam a expressar sua própria condição habitativa por meio do desfecho do seu coagir. Abre-se, assim, a possibilidade de pensar o caráter comunicativo da ação, dentro da atopia. Ela não é um novo tipo de espaço nem um território simulacro. Conforme, Di Felice (2017) ela é mais do que isso, de fato, a atopia poderia ser definida como uma pós-territorialidade no sentido de que vai além das formas físicas do espaço, substituindo-as por uma forma informativa digital e transorgânica. O habitar atópico se faz por hibridação – tanto transitória e fluido – de corpos, tecnologias e paisagens. Como o advento de uma nova tipologia de ecossistema que não é nem orgânica nem inorgânica, nem estática, nem definível, mas informativa e imaterial sugere ser.


Por fim, em suma, para Lévy (2002) a condição primordial para mediação estética é evidentemente humana: trata-se da alfabetização na inteligência coletiva e das competências em gestão estigmérgica dos conhecimentos dos participantes da esfera pública. No entanto, essas qualidades humanas devem ser pensadas em articulação com o desenvolvimento de tecnologias intelectuais e de modos de comunicação ainda inéditos, que, mais que outros, saberão explorar a disponibilidade de dados e o poder de cálculo, doravante ubiquitários no espaço digital. Em um plano científico, ela deverá mobilizar os métodos e os resultados da informática humanista (digital humanities) e da gestão distribuída de conhecimentos.


Referencial teórico

BAUDRILLARD, J. O sistema dos objetos - 5ª edição. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2019.

BENJAMIN, W. Sobre arte, técnica, linguagem e política. Portugal: Relógio D’Água Editores, 2012

DI FELICE, M.; ROZA, E.; PEREIRA, E. (orgs.). Net-ativismo. Campinas, SP: Papirus Editora 2017. Edição do Kindle.

DI FELICE, M. (2017). Cap. 1: Net-ativismo e ecologia da ação em contextos reticulares. In: DI FELICE, Massimo. ROZA, Erick; PEREIRA, Eliete (Orgs.). Net-ativismo. Campinas, SP: Papirus Editora 2017. Edição do Kindle.

HORKHEIMER, Max; ADORNO, T. “The Culture Industry: Enlightenment as Mass Deception” In: HORKHEIMER, Max; ADORNO; NOERR, G. S. Dialectic of Enlightenment (Cultural Memory in the Present). California: Stanford University Press, 2007.

LATOUR, B. The politics of nature. How to bring the sciences into democracy. Cambridge, Mass: Harvard University Press (2004)

LÉVY, P. Cyberdémocratie. Paris: Odile Jacob, 2002.

MEYROWITZ, J. (1985, p. 65) apud DI FELICE, M. (2017). Cap. 1: Net-ativismo e ecologia da ação em contextos reticulares. In: DI FELICE, M.; ROZA, E.; PEREIRA, E. (orgs.). Net-ativismo. Campinas, SP: Papirus Editora 2017. Edição do Kindle.

MORIN, E. (2011, pp. 80-81) apud DI FELICE, M. (2017). Cap. 1: Net-ativismo e ecologia da ação em contextos reticulares. In: DI FELICE, M.; ROZA, E.; PEREIRA, E. (orgs.). Net-ativismo. Campinas, SP: Papirus Editora 2017. Edição do Kindle.

NEGROPONTE, N. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SANTAELLA, L. A ecologia pluralista da comunicação. São Paulo: Ed. Paulus, 2010.

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